18/06

Percepção de solidão

sozinha

Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha também. O filme começa.

Charada: qual das duas está mais sozinha?

Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.

Muitas mulheres já viveram isso – e homens também. Você viaja sozinha, almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas uma contingência do momento – há alguém a sua espera em casa. Esta retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não é sozinha.

Então de repente você perde seu amor e sua sensação de solidão muda completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes – sozinha – mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é mais uma opção, é um fardo.

Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem alguém, você encara a vida sem preconceitos, você expõe-se sem se preocupar com o que pensam os outros, você lida com sua solidão com maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente sozinha?

Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando estamos sós, nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por dentro.

SOBRE A AUTORA:

Martha Medeiros nasceu no dia 20 de agosto de 1961. É jornalista, escritora, aforista e poetisa brasileira.

Jaqueline
Oi, eu sou a Jaqueline, mas pode me chamar de Jaque! Tenho 22 anos, sou formada em Administração de Empresas, apaixonada por livros e a louca da fotografia.Adoro dias frios, seriados (♥) e a combinação dos dois também. É aqui que compartilho meus sonhos, minhas alegrias e minhas incertezas. Esse é meu mundo na internet, espero que goste!
Quebrado
Sobre as decisões que a gente precisa tomar
Passado acabado


 

  • Oi! Então, foi um texto bem profundo e baita reflexivo e eu não sei direito o que dizer. Se é que entendi direito, arrisco a concordar do início ao fim. Acho também que a solidão é mais “ser” do que “estar”. Estar só e ser solitário são coisas distintas, eu acho. Enfim, adoro aqui, de verdade. Beijo.